quinta-feira, 24 de abril de 2008

muito pouco ou nada


Muito pouco ou nada surge redentor
Do que nunca seremos,
Outro que nunca foi , há-ser
Carne viva fulgurante, ou pasmo patológico
De si mesmo enfermo de grávidas luzes,
Não enveredando pelos limites, mas circunscrevendo-os
Como labareda periclitante de se apagar
Cultivando a pastorícia do engate, um outro Ovidío
Que tornasse clássica a parcimónia de um outro tempo, que nunca se esgotasse
Na efémera roda da vida.


Januário

24-04-08

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

obeso de volúpia


Obeso de volúpia mitigada
Anelo de traumática infância
Quase nu vi a diversa debandada
Criar raízes, dos feudos vigilância
Vorazmente se recria, cosmopolita
Estranho devorador de si próprio
Interactiva os genes, qual romeira bendita
Patrulha a noite de olho ciclópico
Flame, flame teu coração
Sentimentos que não te acusem
De ti cheio, espontânea combustão
E cinzas, pó da memória não usem.




Januário


8/9/96

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Fado #1




FADO # 1





Exéquias desenrolam-se nos Prazeres,
Enquanto cabeças rolam nas Necessidades, AH, AH, AH
E o arqueólogo disseca as inúmeras cabeças
Flamejadas pelos estupefacientes, logo ali

Em frente à leitaria Nogueira, que afinal é alugada
Por dois irmão provenientes do Minho
Aturdidos pelo rap das longas esperas dos clientes
Em busca duma crise realmente violenta

E nas fímbrias vistas do rio, que em lata surge, resplandecente
Às cavalitas dos horríveis prédios construídos
Pelos sacerdotes da urbanização algures nas décadas
Da imbecilidade aguda dos emolumentos autárquicos

Surge agora pelas folhas caídas do Outono
Um cheiro a terra que imana dos feéricos
Motivos que levam a um balde de cal e um sino
Com que se arruma o assunto.




Januário Esteves

13-12-2007

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Os avoengos


Inspirado pelas memórias avoengas
Aturdido pelo migrar das gerações
Fui pelo desejo de carpir às cegas
O que em muitos foram cessões

Mas em todos encontrei o fito
Por que sofreram e porfiaram
Portugal, Portugal, foi o mito
Por quem no fim se entregaram


Viam longe, pelo matagal cerrado
O que mais adiante se aglutinava
Num pasmar constante, de ignorado
A memória cáustica, aplicava

Boas lembranças improcedentes
Que a nós nos lembravam
Os dizeres das mortas gentes
Que tanto nos avisaram.


Januário


29-11-2007

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Sagrações


Sagrações atropeladas
Em júbilo no asfalto
Na plataforma do descanso
As emoções são retiradas
Ao que berra mais alto
Presidiário do vil amanso.




Januário

4/3/86

Sim


Sim, hoje tudo transparece
De novas formas entrevisto
E o que foi, nos esquece
De sermos alma do corpo visto
Soletrando a pubescente candeia
Loucos de reflectir o caos
Os braços de consumir a ideia
Do que nos trouxeram as naus
Sim, tudo isso, hoje é nada
Frágua de nos sentirmos sós
Abandonados de fortuna tragada
O destino fosse a enxada
De chão lavrado fossemos nós
Certeza fecunda disseminada.



Januário

7/1/86

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

SURTO INFINITO


Surto infinito
Etapas em fuga
o coração lembra
Quase morrendo.





Januário

2/4/84