quarta-feira, 18 de março de 2015

Entrevista a Aquilino Ribeiro por Igrejas Caeiro 1957




I. C. — O seu nome é apenas Aquilino Ribeiro?
A. R. — Bem, eu quando andei a estudar, tinha também mais um outro apelido, mas nós devemos simplificar a nossa vida e simplificar tudo o que nos diz respeito, parece que a…
I. C. — Os americanos até vão mais longe, põem só iniciais, não é?
A. R. – É isso, é. Bem, eu chamava-me Gomes, também. Cortei o Gomes, atirei o Gomes fora.
I. C. — (riso)
A. R. — Não sei se sabe que o Gualdino, a propósito de um, de uma pessoa conhecida, escritor, que se chamava Francisco…
I. C. — Hum, hum…
A. R. — … e passou-se a chamar Fran, só, cortou, atirou com o (o)«cisco» fora; o outro deu o cavaco, eh?
I. C. — Costuma festejar o seu aniversário?
A. R. — Nunca, nunca; nem quero saber que faço anos. Em todo o caso, às vezes, em minha casa lembram-se disso e minha mulher tem, apresenta um pudim, com grande espanto meu, pergunto-lhe porquê…
I. C. — E umas velas para assoprar ou não?
I. C. — Não, as velas é na Alemanha. Você sabe, eu sou casado duas vezes, a minha primeira mulher, era alemã, é que tinha sempre o cuidado de fazer, de acender as velas para o rapaz.
I. C. — Para ver se realmente todos tinham fôlego ainda…
A. R. — Isso é que ela não viu.
I. C. — … correspondente à sua idade.
I. C. — Importa-se dizer a data do seu nascimento?
A. R. — Absolutamente, nenhum.
I. C. — Pode ocultar o ano…
A. R. — Não, não, não; não, não, não, senhor, não senhor.
Eu nasci em 1885. Foi o ano, foi o ano, em 1885, foi o ano em que se casou o Camilo, se não estou em erro.
I. C. — Aí está o Camilo, presente… Donde é natural?
A. R. — Bem, eu nasci no, nasci perto do Távora, no concelho de Sernancelhe, uma aldeiazita…, pacata, pobre, em que havia um convento, noutros tempos, como em todas as aldeias, que eram… que eram…
I. C. — … aldeias notáveis.
A. R. — Não, notáveis, não; que eram, que eram de, o solo era, era fértil.
I. C. — Ah, sim, sabiam escolher sempre…
A. R. — E tinham…
I. C. — … os lugares.
A. R. — Sabiam escolher os lugares. E Era uma terra de castanheiros, eu nasci no meio dos castanheiros, na zona dos castanheiros. Sabe que o castanheiro é uma(i)árvore bonita, uma árvore da força e da beleza.
I. C. — Frondosa.
A. R. — Mais que frondosa, (o que é…) um castanheiro é uma cidade. Uma cidade para os pássaros. Há o peto-real[2], há a poupa, há o melro, que fazem o ninho nos castanheiros…, e depois…
I. C. — É um pequeno mundo.
A. R. — Absolutamente. É um perfeito, um perfeito mundo. E depois as pastoras, que vêm com os seus tamanquinhos… britar o ouriço e com os britadores especiais, tem muita graça, e com o seu capuchinho, a apanhar as castanhas todas as manhãs, quando vem um bafo de vento, e quando elas começam a rir!?, a castanha é uma coisa muito bonita…    … o ouriço.
I. C. — A não ser quando é a outra castanha…
A. R. — Ah!...
I. C. — … aquela castanha… que nós dizemos simbolicamente.
A. R. — Ah…, bem…
I. C. — Não é tão bonita.
A. R. — Também jogam, também jogam. Há uns camponeses, são levados da breca. Deixe estar que…
IO. C. — Perde-se muitas vezes em recordações de infância?
A. R. — […] sim, sim, sim. Sim. Eu pergunto-me se…, todos nós nos perdemos. A(h)… O homem que vive, que vive muito dentro de si…
I. C. — Tem vida interior.
A. R. — e o homem de, o homem como eu e tal, portanto, tem uma vida bastante, tem… a sua vida interior é uma feira. Uma feira e uma floresta e essa floresta, as árvores nasceram, como todas as árvores que nasceram de pequeninas…
I. C. — Mas neste caso, domina a sua própria floresta.
A. R. — Sim , sim, sim…, sim… Por lá andamos, por lá nos perdemos… sempre… O mais agradável é…
I. C. — Agrada-lhe a ideia de saber que o seu nome está indissoluvelmente ligado à história da literatura portuguesa e que a sua obra se projecta largamente, para além da sua própria vida?
A. R. — Não sei nada disso, vê?! Tudo o que nós fazemos hoje é um mistério. Nós não sabemos o que espera, qual é o destino dum escritor português, dum escritor… dum escritor…
I. C — … duma forma geral.
A. R. — … de hoje, porque…    … eu estou convencido que nós estamos numa viragem do mundo; as formas de arte estão-se a transformar; a literatura de hoje não será a literatura de amanhã, com certeza. E resta saber… Nós nunca podemos ter uma confiança, nunca podemos jogar sobre a nossa própria carta. Será, nem…, eu creio que nem o próprio Salomão jogava sobre si próprio. [ah…, ah… (frouxo de riso, contido, mais visível nos olhos)]
I. C. — A sua infância foi propícia à sua tendência literária?, ou, pelo contrário, resulta duma reacção contra o ambiente em que viveu os seus primeiros anos?
A. R. — Bem, eu fui sempre rebelde, mais ou menos. Uma rebeldia barata, … jogador… de
I. C. — Uma rebeldia que é do coração[3]?!
A. R. — Sim, talvez. A infância, do rapaz que viveu na aldeia e nasceu na aldeia, jogando a bofetada com os outros e a pedrada…
I. C. — A tal castanha…
A. R. — A tal castanha. E outras… E todas essas…
I. C. — Mas, quer dizer, tudo isso cimentou a sua personalidade.
A. R. — Sim… Eu creio que, creio tive a lucrar com isso, com essa liberdade, um pouco bravia, um pouco sobre, feita da… do contacto com…
I. C. — Com a natureza…
A. R. — Com a natureza, com o homem, mesmo até com o próprio… com a vida em todas suas formas; no tempo dos pássaros andando, correndo, tirando os ninhos, que é uma barbaridade; depois, logo que comecei a ter uma certa idade, à caça e a cavalo, montava a cavalo num cavalo sem, …    sem…
I. C. — Essa tendência, essa curiosidade pelos ninhos não será já uma curiosidade pelo próprio mistério da vida?
A. R. — Talvez…, talvez, talvez. A vida apaixonou-me sob, sob todas as formas. Sobretudo essas formas insignificantes que não me chamavam a atenção dos outros. Essas é que me preocupavam sempre; um formigueiro, um ninho de um passarinho pequenino que há chamado a folecha[4] que está com uns olhinhos pequeninos a olhar para nós, quando está em cima do ninho…
I. C. — É a primeira vez que lhe ouço[5] o nome.
A. R. — É. A folecha é…
I. C. — Algumas das recordações de infância vieram a servir a sua obra literária?
A. R. — Sim, eu já escrevi dois livros sobre, sobre a, sobre a minha infância, não, mas sobre o que eu imagino ser a infância dum rapazinho colocado lá nas minh…
I. C. — … nas mesmas condições.
A. R. — … nas mesmas condições. Com pequenas…
I. C. — … variantes.
A. R. — Com pequenas variantes, evidentemente…
I. C. — Parece-lhe (que) as andanças por terras estranhas tiveram larga influência a sua obra?
A. R. — Ah, certamente.
I. C. — Andou muito por França,
A. R. — Muito.
I. C. — muito pela Alemanha.
A. R.— Sim, bastante, bastante pela França, por França e Alemanha, isso serviu-me de aferidor do meu trabalho e do que eu faço. Se por um lado me deu confiança para umas certas coisas, para outro, chamou-me…
I. C. — … a uma realidade.
A. R. — … chamou-me a uma realidade e à necessidade de me melhorar.
I. C. — Com que idade chegou a França?
A. R. — Cheguei a França com…, foi em mil e novecentos e…, foi em 1907/1908.
I. C. — Portanto, muito novo.
A. R. — Em 1908 eu tinha vinte e… ss…, eu nasci em 1885, portanto, são 26 anos ou 27 ou 25.
I. C. — Sim, por aí.
A. R. — Ou menos ainda.
I. C. — Sentia-se estrangeiro em Paris, ou considerava essa cidade capital e pátria dos intelectuais de todos os países?
A. R. — Bem, de princípio, tive de me aclimatar; mas, depois, era a cidade ideal para tudo, para tudo… o homem que tenha um bocado de curiosidade e de instintos…
I. C. — E continua a ser.
A. R. — E continua a ser. É a cidade em que eu, em que eu gostaria…
I. C. — … de viver?
A. R. — Sim, mesmo de viver, digamos. De viver, sim. Lá vive-se uma vida independente. Um homem não se perde lá como aqui. Parece que… Todavia, Paris é um deserto para um estrangeiro, não é?
I. C. — Ah, sim.
A. R. — E, todavia, um homem anda absolutamente à vontade, em Paris. E não há, outra coisa que eu adoro em Paris…, é que um homem tem um ideal qualquer, tem uma necessidade. Satisfá-la sempre. É uma cidade estupenda.
I. C. — Tem sempre um companheiro que o compreenda?
A. R. — Não, não é um companheiro. A gente encontra, por exemplo, tem uma necessidade qualquer, precisa de um quadro, precisa de um objecto, precisa de uma futilidade, encontra-a sempre; ou num armazém ou numa casa de bric-à-brac…, em suma: eu nunca fui verdadeiramente infeliz em Paris. Eu tenho sido infeliz em muitas partes, até mesmo aqui em Lisboa, até mesmo lá na minha aldeia. Em Paris, nunca fui infeliz. E parece-me que, se fosse um dia infeliz, no dia seguinte era feliz.
I. C. — Encontrava logo uma compensação.
A. R. — Bem, também é a idade, é uma questão da idade. Eram os meus vinte e cinco anos, era a minha mocidade.
I. C. — O que é que sentiu, quando pela primeira vez o trataram de Mestre?
A. R. — Ah, não senti coisa nenhuma. Acho que é absurdo. Acho que o Mestre, devemos reservar essa palavra para os sapateiros. [Ri.]
I. C. — Mas não há dúvida nenhuma que hoje se diz sempre Mestre Aquilino.
A. R. — Nááá, isso é uma homenagem que eu não mereço, mas eu sinto-me sempre confundido com essas homenagens e não as peço e não as solicito, não.
I C. — A sua vida material foi sempre assegurada pela literatura ou teve outras profissões?
A. R. — Não. Nunca tive outras profissões. Eu já fui…, por outra, estou a mentir. Eu fui funcionário já do Estado, eu fui conservador da Biblioteca Nacional e saí, depois, saí com a revolução de Fevereiro, aaa… mas, o meu pai sempre me deixou uns benzitos ao luar, não muito grandes; em suma, sempre davam para a merenda dum dia ou doutro. E trabalhei sempre bastante; sabe, eu hoje tenho uma obra bastante vasta. É o que me vai…
I. C. — Era exactamente o que lhe queria perguntar. Que lhe parece o facto de ser dos raros escritores em Portugal, que pode orgulhar-se de viver, de ser escritor?
A. R. — Não percebi a… o que…
I. C. — Que lhe parece este facto de ser dos raros escritores em Portugal…
A. R. — Bem, eu, acho que sim…, que Portugal… isto está-se, é uma terra que tem sete milhões, em sete milhões deve haver quatro, cinco, cinco, cinco, cinco mil leitores, não é verdade?, capaz de nos ajudar a esgotar uma obra, não é verdade? Eu tenho, de resto, alguns trabalhos, como aVia Sinuosa e o Romance da Raposa, que estão muito para lá dos, para os vinte mil, para aí… e tal.
I. C. — Pois é, mas nem todos os escritores se podem orgulhar disso.
A. R. — Bem, isto também pode ser uma questão de sorte, uma questão de…, eu nunca fui, nunca fui um, nunca fiz assim uma propaganda desenfreada e desonesta. Eu nunca me fiz elogios a mim próprio; mas, sim, eu, o público não é tão, o público, como é que eu devo dizer, não é tão ingrato como se imagina; o público, quando se tem respeito por ele e pelas suas convicções e não se engana, [I. C. — Corresponde.] ele corresponde-nos.
I. C. — Também é dos que perfilham a opinião de que o século XIX foi mais brilhante, do ponto de vista literário, do que está sendo a época actual?
A. R. — Talvez. O século XIX não tinha estas admiráveis, estas admiráveis … admiráveis meios de comunicação, como seja o avião, como seja o automóvel [I. C. — Mas distraem muito.] rápido. Sim. Distraem o indivíduo. O homem vivia mais sobre si, no século XIX. O século XIX era um século de maior pacatez, de maior in…
I. C. — Interioridade.
A. R. — … de maior interioridade…, se pode, deve ser esse o termo. De forma que todas as formas de arte e de beleza, não é verdade?, se aprazem mais nessa, nessa atmosfera [I. C. — Nesse ambiente.] … do que neste.
I. C. — Quando aborda temas históricos, subordina-se à verdade dos factos ou interpreta à sua maneira os acontecimentos, colocando-se na posição de comentador, distanciado no tempo e no espaço?
A. R. — Bem, eu de uma maneira geral nunca falsifico a realidade histórica. Posso dar-lhe um bocadinho de…
I. C. — … de romance?
A. R. … de água tinta, só, mas nunca falsifico a verdade. Eu considero que é uma indignidade, mesmo eu agora escrevi um livro sobre Camilo, foi chamado O Romance de Camilo, nunca alterei a verdade. Pode haver um bocadinho de…    …, como lhe acabo de dizer, de cor, de cor, apenas, mas nunca me permiti alterar um acto na sua, no seu dimensional, digamos.
I. C. — Ou, então, põe hipóteses, quando não tem certezas.
A. R. — Ah, sim, sim, isso sim, isso sim; a hipótese é sempre admissível, pois evidentemente. Nós, muitas vezes, jogamos com a conjectura.
I. C. — Claro.
A. R. — Está certo.
I. C. — Parece-lhe que os intelectuais têm influído na espantosa evolução do mundo?
A. R. — Eu acho que são, que são os primeiros, os intelectuais, vistos na sua generalidade…
I. C. — São a vanguarda.
A. R. — … porque o intelectual não é apenas o homem de letras; o intelectual é o homem, o sábio, o matemático, o médico [I. C. — Claro!], não é verdade?
I. C. — Com certeza!
A. R. — Eu acho que são, eles é que têm feito o mundo. Mas têm feito o mundo bem, o mundo bom e o mundo mau…
I. C. — Com certeza, com algumas fases.
A. R. — Porque os sábios agora têm feito, evidentemente, eles arrependeram-se do que fizeram, esta [I. C. — -------.] a obra, toda esta [I. C. — desintegração atómica], tudo isto é um pouco a obra nefasta, o lado nefasto da ciência, que há-de acabar por redundar apenas em proveito da humanidade, porque…, ou então isto…
I. C. — … acaba.
A. R. — seria o fim do mundo, seria o dies irae.
I. C. — Mais adiante, exactamente, gostava de falar acerca do assunto. Tenta compreender a juventude, nos seus excessos e aparentes loucuras, ou sente-se irremediavelmente divorciado de atitudes consideradas incompreensíveis?
A. R. — A respeito dos rapazes de hoje? Bem, os rapazes de hoje… estão a… O mundo está em ebulição e em transformação. A mocidade de hoje não compreende a modificação que o mundo está a sofrer, sobretudo…
I. C. — Não se apercebe.
A. R. — … sobretudo o mundo físico; mas…, mas a mocidade é sempre a mocidade. Tomara-a eu.
I. C. — Parece-lhe que as conquistas materiais da humanidade encontraram paralelo no progresso moral do homem e que os caminhos percorridos nos indicam perspectivas de um mundo melhor?
A. R. — Bem. Não! O mundo moral, a meu ver, o progresso no mundo moral é…
I. C. — É inferior?
A. R. — Não será inferior…, mas é infinitesimal, comparado com o outro progresso. Essa…, a marcha é quase, é quase que, é quase… como é que eu devo dizer? ……Insaisissable.
I. C. — Não se dá por ela.
A. R. — Não se apanha…
I. C. — Não nos apercebemos.
A. R. — Não há instrumentos que sejam capaz de medir a marcha realmente do progresso moral. Nós, se fizéssemos, se fosse possível fazer um cotejo
I. C. — Um paralelo…
A. R. — Aaaa… ou um paralelo, absolutamente…
I. C. — …concreto…
A. R. — … matemático e objectivo entre o homem do tempo de Péricles e o de… e do homem de hoje, nós perguntávamos: em que é que nos nos melhoramos. Creio que moralmente isso, o que nós chamamos simpatia humana, bondade, doçura, afabilidade, simpatia, aaaa…, ternura…
I. C. … fraternidade, enfim.
A. R. — … tudo isso deve ter
I. C. — … Retrogradado?!
A. R. — … avançado em teoria; em teoria, apenas, porque hoje não há igualdade das classes, nós hoje não admitimos; mas o homem por dentro, o homem interior, o homem dentro desses quadros continua a ser o mesmo… Hã?
I. C. — Realmente, é assim.    …    … Muitos homens consideram a guerra como um mal indispensável, como mola propulsora do progresso. Qual é a sua opinião?
A. R. — Eu acho que isso é uma barbaridade. Acho que é um pensamento, é um pensamento absolutamente paradoxal. Houve o Sorel que considerou a guerra como necessária, como uma fonte de progresso… E é possível que seja uma fonte de progresso. É possível que seja um [I. C. — Mas o preço é tão caro…] que seja um instrumento de progresso…, que não vale a pena realmente irmos por esse lado. Por outra, porque com a febre, os homens, de vencer o seu semelhante, têm feito descobertas absolutamente estupendas, mas que eles fariam, talvez, levados por outros estímulos.
I. C. — Sem ser a guerra.
A. R. — Sem ser a guerra. O estímulo de: porque é que se não há-de criar o estímulo da minha, do que eu faço em matéria de bondade ou em matéria de beleza, ser… ser igual ou superior?
Criar a emulação nesse…
I. C. … nesse sentido.
A. R. — … nesse sector, não é?
I. C. — Parece-lhe que os fantásticos meios de comunicação e fácil acesso às fontes de informação tornam mais ou menos difícil a condução política dos povos?
A. R. — …
I. C. — É que hoje realmente os estadistas não podem ocultar certas coisas dos povos. Há um fácil acesso. Parece-lhe, portanto, que a condução política dos povos é mais difícil para os governantes?
A. R. — Bem… Eles têm sempre, se por acaso lhe falham uns meios, readquirem outros que os compensam realmente de determinados prejuízos que se deram, quanto a manterem esse hermetismo, se se por acaso dentro de fronteiras se isso vier necessário. Eu creio que nós marchamos para um nivelamento absolutamente, absolutamente fatal. Agora, vai, vamos ter a Europa de …   os seis países, movidos por tratados de comércio e de economia; e depois, hão-de vir, simultaneamente, acordos de natureza [I. C. — cultural], de natureza cultural e isso há-de invadir os outros países, porque os outros países não poderão resistir [I. C. — Senão ficam para trás.], à parte desses outros.
I. C. — Tem retardado a publicação de trabalhos seus, esperando a oportunidade mais conveniente?
A. R. — Bem; algumas coisitas, mas… sem, sem ser de grande relevo. Em todo o caso, tenho algumas páginas sempre reservadas, como toda a gente.
I. C. — Compreende ou repudia os sacrifícios que hoje por toda a parte se exigem do indivíduo, em favor da colectividade?
A. R. — O sacrifício do indivíduo, em favor da colectividade, quer dizer, quer dizer o…
I. C. — O indivíduo sente-se cada vez mais limitado nos seus direitos. A colectividade começa a sobrepor-se-lhe.
A. R. — Bem… Isso implica o quê…, implica a existência de um indivíduo num país socialista, não? Ou num país, ou na sociedade…
I. C. — Na sociedade contemporânea vulgar…
A. R. — Na sociedade contemporânea de hoje… Bem! Um indivíduo, naturalmente um indivíduo nunca cede os seus direitos à colectividade…
I. C. — --------- de forma nenhuma
A. R. — … mas é obrigado pela própria natureza dos factos e tem de ceder. Imagino que era essa a pergunta que… [I. C. — Exactamente] … que pretendia.
I. C. — Queria exactamente saber se repudiava totalmente ou se aceitava esses sacrifícios.
A. R. — B… ff… francamente… francamente… ff…
I. C. — Aceita com relutância!...
A. R. — Não, não é aceito com relutância. É que não vejo que, não vejo que o problema esteja posto com, como é que eu devo dizer?! [I. C. — Com clareza…], com lógica psicológica. Quer dizer: o indivíduo despoja-se das suas regalias, em proveito da sociedade, porque é obrigado a despojar-se, porque o facto mesmo de ser indivíduo, de ser ele, mantém-o na sua torre e dentro dos seus coiso, dentro do seu egoísmo. O egoísmo move o mundo. O meu umbigo é o umbigo do universo. É… Evidentemente…, é lamentável que assim seja, mas eu considero que o indivíduo se sobrepõe a tudo e quando se não sobrepõe é porque o obrigam a ceder.
I. C. — Há uma força superior.
A. R. — Uma força superior, é a força, é… evidentemente… é a força do… [I. C. — É a força natural.], é a força centrífuga de todas as… que se exerce sobre o indivíduo e que o… [I. C. — … e que ele não pode alhear-se.] … que não pode alhear-se.
I. C. — Quando há mais de um filho, por mais que seja a equidade paterna, por maior que seja, intimamente, existe sempre uma preferência. Qual é na sua vastíssima obra o seu livro preferido?
A. R. — Aaaa(i)hh! Francamente que não sei. Olhe, eu quando faço, quando faço um, quando estou a escrever um livro, julgo sempre que o meu livro, que o livro que escrevo que é o melhor. É… E depois de ele feito, julgo que é sempre o pior. E a minha vontade seria, no dia em que ele sai da tipografia, rasgá-lo. [Pequeno riso de I. C.] Rasgá-lo.
I. C. — E depois…
A. R. — Depois…
I. C. — Faz as pazes.
A. R. — Faço as pazes!? Não sei…, não sei…, não sei. Olhe. Eu nunca mais leio os meus livros.
I. C. — Ah!
A. R. — Nunca mais leio os meus livros.
I. C.— Em todo o caso, sabe bem o que está lá dentro!?
A. R. — Sei, sei um pouco, porque não perdi a memória, mas… Eu faço os meus livros com todo o amor. Eu.    …
I. C. — Quer dizer, o momento da criação, é o mais importante para si.
A. R. — Sim, eu entrego-me absolutamente. Eu não faço melhor porque não sei. Eu não faço melhor porque não posso. Eu escrevi agora um livro, aaaa…, publiquei agora um livro chamado A Casa de Romarigães, sob forma de romance, é a história de uma casa. Em vez de ser o indivíduo o centro dum enredo, é [I. C. — È a casa.] é uma propriedade; é um solar. É um solar duns fidalgos e ao mesmo tempo eu conto as vicissitudes desse fidalgo, mas eu estava a fazer esse livro muito satisfeito, julgando que tinha feito uma bela obra; e agora julgo que, em suma, pelo menos passa pelos mesmos avatares que passaram os outros.
I. C. — Começa a crítica a denunciá-lo e a dizer o contrário do que está a pensar neste momento?
A. R. — Eu…, a crítica portuguesa é perigosa, o que não quer dizer que não haja críticos, bons críticos em Portugal, ainda. E…
I. C. — Independentes.
A. R. — E independentes e com boa disposição… e tal, mas sim…, uma terra como, que já tem oito milhões de habitantes… Há o bom e o mau.
 I. C. — Ah, claro! Teve dificuldade na edição do seu primeiro livro?
A. R. — A edição do meu primeiro livro foi feita em Paris. Foi o Carlos Malheiro Dias é que patrocinou a edição desse primeiro livro. Ele é que foi, por assim dizer, o padrinho [I. C. — O padrinho literário.] e escreveu [I. C. — um prefácio], e escreveu um prefácio, e escreveu ao editor e o editor chamou-me e diz… — O senhor tem aqui, vai publicar um livro? Dê cá o original. Quanto é que quer? — «Eu quero tanto.» — Ah, isso é demais… e tal. Ele ali fez um pequeno [I. C. — …abatimento.] um pequeno abatimento e pagou-me o livro relativamente bem. [I. C. — Então, não houve dificuldade.] O que foi uma maravilha…
I. C. — Não houve dificuldade.
A. R. — E sobretudo, em Paris, não é?
I. C. — Está de acordo com a educação que lhe deram e tentou proceder de igual maneira na educação do seu filho ou usou de sistemas diversos, aprendendo na sua experiência da vida?
A. R. — Sim, aprendendo na minha experiência da vida. Evidentemente que a educação que me deram não seria a educação que eu dei aos meus filhos. É muito diferente; porque eu creio que… [I. C. — Até porque a vida é outra.] A vida é outra. Mas até aos dezasseis, dezassete, dezoito anos, o indivíduo não tem vontade. Nós é que temos de lhe imprimir a nossa vontade…
I. C. — Encaminhá-lo.
A. R. — … e encaminhá-lo. Eu fui abandonado um pouco cedo; e abandonado ao meu livre-arbítrio. E de maneira que…
I. C. — Isso talvez fosse bom.
A. R. — Não sei; por um lado, cultivou certas faculdades de independência [I. C. — e desenvolveu-as.] e desenvolveu-as e tal, mas… dei muito tombo. [Ri.]
I. C. — Qual é para si o significado daquela terra de ninguém e de todo o mundo, compreendida entre A BRASILEIRA e a BERTRAND?
A. R. — Bem…
I. C. — Acha bem que lhe chame terra de ninguém?
A. R. — Bem, está bem, aquilo é um ponto de passagem e tal…, é um ponto de passagem. Encontro ali alguns amigos, com quem me é agradável conversar.
I. C. — Mas tem um certo carácter?
A. R. — Tem, tem. Realmente é um bocadinho agradável de Portugal, hã…, e do nosso século.
I. C. — Sente-se arrependido de ter acedido a responder a este inquérito?
A. R. — Não, de maneira alguma. Você, já lhe disse… que você… até… que era um sedutor e que eu, portanto, eu estava, não o queria… tinha todo o prazer em lhe ser agradável, primeiro; segundo: isto, simultaneamente, não deixa de representar para nós, também…
I. C. — Um contacto.
A. R. — Não é um contacto, é uma homenagem, também, o senhor naturalmente não chama toda a gente, não chama o primeiro que encontra ali. Segundo: também é agradável entrar em comunicação com o público e que ele saiba quem nós somos, e que ele saiba quem nós somos por dentro.
I. C. — É isso mesmo que nós pretendemos.
A. R. — Tanto mais que o senhor…
I. C. — É um retrato… que estamos a fazer.
A. R. — …o senhor traz-me aqui, sujeita-me aqui a um exame, como estão agora a fazer aos rapazinhos da instrução primária. (Ri.)
I. C. — Mas não tem raposa, com certeza… Passou alguma vez na vida por qualquer crise de misticismo?
A. R. — Quando era pequeno; quando era pequeno; até aos, até aos dezanove anos, dezoito/dezanove anos. Depois…
I. C. — Libertou-se.
A. R. — … despi essa clâmide de uma maneira definitiva.
I. C. — Fragorosa.
A. R. — Nunca mais, nunca mais, nunca mais, louvores ao Senhor, que me tirou todas essas escamas dos olhos; e da(i)alma. Da (i)alma e dos olhos.
I. C. — Consegue ter tempo para estar em dia com as leituras contemporâneas e é capaz de debruçar-se sobre livros de desconhecidos?
A. R. — Sempre. Eu tenho o meu filho que tem uma curiosidade insaciável, este rapaz que é engenheiro. E ele é que compra os livros novos e ele vai-mos pôr na minha mesa. E ele…
I. C. — Aguça-lhe a curiosidade.
A. R. — … ele sabe, eu creio que ainda os lê primeiro do que eu. De maneira que eu estou ao corrente de toda, da literatura, de toda a americana, inglesa e de toda, de tudo o que há de novo por esse mundo.
I. C. — Gosta de sentir-se com a multidão e confundir-se com ela?
A. R. — Sim, sim… Eu sempre fui, eu sempre fui sociável e… homem do povo… homem de… homem de, homem para fraguar, correntão, homem…, pau para toda a colher.
I. C. — Qual teria sido o acontecimento do mundo que mais o tocou em toda a sua vida?...    …    … E grandes coisas se têm passado…
A. R. — Hmm…    …    grandes…    mais…
I. C. — Guerras, paz…
A. R. — Bem…
I. C. — em ciclos constantes…    … invenções…
A. R. — Tudo isso…, tudo isso.
I. C. —  … descobertas…
A. R. — Olhe, eu assisti, por assim dizer, uma das coisas, um dos… um dos… uma das coisas que mais feriu a minha imaginação foi o meeting de aviação, o primeiro meeting de aviação que houve no mundo, a que eu assisti em Paris, em que vi morrer dois ou três. A subirem…
I. C. — …
A. R. — … em Issy-les-Molineaux. E ver aqueles aviões…
I. C. — Na altura em que a aviação principiava.
A. R. — …    principiava. À volta de mim, havia gente a chorar. Nunca se imaginou que fosse possível, realmente…    …
I. C. — Quais são os espectáculos que mais prendem a sua atenção?
A. R. — Espectáculos de…, de que natureza?
I. C. — Os espectáculos da vida, os espectáculos de arte…
A. R. — Espectáculos de arte…
I. C. — Teatro, bailado, a música, a ópera, o circo…
A. R. — Talvez. Baa …(??) Bem. Ainda não pensei nisso, ainda, mas é possível que seja, é possível que seja um bailado.    …    … É possível que seja um bailado, sim…
I. C. — Falámos da aviação… As viagens de avião atemorizam-no ou entusiasmam-no?
A. R. — Pelo contrário, entusiasmam-me. Já fiz a travessia do Atlântico. E já andei, e já visitei todo, quasi todo o Brasil, o Sul do Brasil até à fronteira da Bolívia.
I. C. — Sempre de avião?
A. R. — Sempre de avião.
I. C. — É muito cómodo. E aviões, até, do exército brasileiro…
I. C. — Não são tão cómodos!?
A. R. — De dois motores e perigosos [I. C. — Não são do exército.]
I. C. — Mas sente-se mais a aviação?
A. R. — Ah, sente, pois sente.
I. C. — Qual é para si o significado da vida humana?
A. R. — Ah, bem, isso é um mistério. É um grande mistério. A vida humana é um mistério. O que cá andamos nós a fazer? Donde é que viemos? Para onde vamos? Para onde vamos…
I. C. — Para onde vamos?
A. R. — Para onde vamos!?... Para onde vamos, evidentemente, nós vamos para o, isto é uma série ininterrupta de fenómenos. O homem é um colóide e está em perpétua evolução. Mas como é que este, como é que se formou este colóide? Como é que este colóide reage? Bem, toda a fenomenologia desse facto é a vida. É a vida (I. C: — …com os seus mistérios.). Se nós pudéssemos controlar todas essas transformações, a forma como se organizou,  … esse colóide, torno eu a repetir, nós teríamos descoberto os segredos da vida.   …pfff…pff..
Eu estou convencido que a vida é um pouco como o relógio nas mãos dum preto que nunca viu o que eram relógios. Ele ouve bater o relógio e sente-o, mas é absolutamente…,  não tem (I. C. — …uma noção), não tem o sentido de civilização que nós temos para percebermos que o relógio que é uma, que interiormente que há umas molas, que há uns rodízios, que há uns volantes (I. C. — mecanismos, enfim.) que fazem girar aquilo. E é, nós perante a vida estamos num…, precisamente na mesma…
I. C. — Eu vi não sei onde esta opinião: a força impulsionadora do progresso é uma força destrutiva. A vida, sob todas as formas e aspectos, é uma doença do nosso planeta. E como todo o micróbio que se preza, tem a tendência de destruir-se, destruindo o meio em que se desenvolve. O homem acabará por destruir-se, destruindo a terra. Parece-lhe que as experiências nucleares são já etapas finais, dando razão a esta terrível profecia?
A. R. — Não, eu acho que pelo contrário, acho que é um ponto de partida para realmente para a penetração dos grandes segredos cósmicos. E creio que a vida que se vai melhorar consideravelmente, depois dessas descobertas, e que daqui a cinquenta(i)anos, daqui a cem anos, viver será agradável e que o homem — nós não sabemos, não podemos dizer qual é o destino da humanidade, qual é o destino do homem e se nós somos realmente, se a vida é, apenas, representa apenas um parasitarismo dentro do planeta. E se a forma mais perfeita da, mais perfeita, digamos, da organização, da organização astral ou telúrica, se será precisamente a nudez absoluta, o vácuo absoluto, a matéria de que são constituídos esses astros, absolutamente inerme, e se isto não representa, realmente, este parasitarismo, se não representa já uma deformação. Podia-se encarar assim, mas perante uma ideia então muito mais alta, muito mais elevada, que nós não podemos alcançar. Nós somos uma partícula volante, no mundo… no mundo que está em contínuo movimento, não é verdade?
I. C. — Em todo o caso, não lhe parece que estamos próximos de ver com acuidade a história do aprendiz de feiticeiro?
A. R. — Ahahh…, eu creio que não, eu creio que não, creio que não. O homem [I. C. — …é capaz de dominar…], realmente há forças destrutivas dentro do homem, essas forças destrutivas são provenientes precisamente dessa coisa em que nós há um bocado falámos: o egoísmo. Eu estou convencido que o homem há-de superar todas essas forças [I. C. — E canalizá-las para o bem.] demoníacas, demoníacas dentro dele e há-de acabar por dominá-las e transformá-las em serviço de si próprio e do restante…, e dos seus semelhantes…, dos outros.
I. C. — Atemoriza-o a ideia da morte?
A. R. — Não é agradável morrer, mas, em suma… É fatal. Havemos de morrer, porque não?... E tal...
I. C. — Festejámos o nascimento de uma obra sua, hoje, exactamente.
A. R. — É verdade.
I. C. — Tem alguma obra em preparação? … Visto que não pára…
A. R. — Bem…Vai sair. Tenho o Camilo a sair. E tenho uma outra a completar; uma que há-de sair agora daqui a dois meses, também. Eu sou como os sapateiros. Tiro uns sapatos e meto outros.
I. C. — Entram outros na forma[6].
A. R. — Entram outros…
I. C — Já alguma vez tentou saber se o público dos seus leitores é mais numeroso entre os homens ou entre as mulheres?
A. R. — Bem, eu nunca averiguei, eu nunca tentei fazer, realmente, um…
I. C. — … um inquérito deste género…
A. R. — Sim…, uma estatística dessa natureza. Mas, alguém, recordo-me que alguém me disse que eu que era cruel com as mulheres. Eu não sou cruel com as mulheres. Eu, a mulher é um bicho complexo, precisamente porque é mais fraco do que nós e que esteve numa sujeição maior do que nós, relativamente ao homem. A mulher era considerada como escrava até ainda não há muitos séculos, não é verdade!?, era uma escrava do homem, mas a minha crueldade era apenas o amor que eu lhes tinha, não é……
I. C. — É uma grande razão de existência, afinal.
A. R. — É verdade.
I. C. — Qual foi a razão que o levou a escrever O Romance de Camilo, essa obra monumental, que tem provocado tanta discussão?
A. R. — Bem. A obra, o Camilo é uma figura deformada; ele próprio se deformou. O Camilo recorda-me um pouco o gato, o gato velho que para enganar os ratos se enfarinhava. Ele, o Camilo começou por se enfarinhar, deformar a sua natureza toda. O Camilo foi um homem infeliz, realmente, em toda a linha.
Mas a grande, a grande infelicidade do Camilo, a grande desgraça de Camilo foi as mulheres não gostarem dele. As mulheres não gostavam de Camilo.
I. C. — Deu o que hoje chamamos um complexo!?
A. R. — Deu um complexo. Deu um complexo tremendo e toda a obra dele… Agora, dir-me-á: «Mas as figuras dele estão todas certas.» — Estão todas certas. É, realmente, ele, ele tinha um sentido de compreensão, que de uma ou duas, três mulheres que amou, ele tirou todas as outras. E estão todas certas, mas…    mas…as mulheres não gostaram de Camilo.    Toda a sua tragédia, a primeira, além da tragédia…, não falando na tragédia económica, que para ele foi secundária já…
I. C. — E talvez até útil, para fazer uma obra vasta…
A. R. — Ah, sim, ele se tivesse, se fosse, quando ele, quando o filho dele, Nuno, casou com uma herdeira rica, por malas-artes do próprio Camilo, que a foi… ajudou a raptar… O Camilo nesses anos não produziu coisa nenhuma, porque ajudou a comer a fortuna do filho.
I. C. — Portanto, estava satisfeito economicamente e não trabalhava.
A. R. — Exacto; é verdade.
I. C. — Mas, em todo o caso, ainda não me disse a razão por que se meteu a escrever O Romance de Camilo
A. R. — Bem, precisamente por isso, porque é uma figura, é uma figura…
I. C. — Que era preciso esclarecer.
A. R. — É uma figura apaixonante…
I. C. — Que era preciso esclarecer.
A. R. — … que eu tinha ideias particulares sobre ele. Ele, realmente, quando as ideias estão dentro de nós como uma fonte, é preciso dar-lhe vazão, não é? Este…, eu tinha ideias especiais sobre o Camilo…, maneiras de ver que nem o Alberto Pimentel, nem António Cabral, nem Dias da Costa, nem esses outros críticos, esses biógrafos que se ocuparam dele, como de nenhum escritor português, pareceu-me que nenhum deles o compreendeu. Eh…, não quer dizer que eu tenha acertado. Imagino que acertei, porque se não, realmente, não me teria abalançado [I. C. — com certeza!] a uma obra destas, mas, seja como for, foi realmente essa necessidade de dizer: Não! Tudo isto está, está errado. O edifício está…
I. C. — … mal construído.
A. R. — …está mal construído. Nós temos… e comecei pelo princípio. Eis a razão por que eu me realmente…
I. C. — Eu próprio beneficiei…,
A. R. — Ahaahh…
I. C. — porque troquei muitas impressões com o Mestre Aquilino, quando tive de realizar a minha interpretação do papel de Camilo.
A. R. — E muito bem…, e muito bem...
I. C. — Como escritor, quer aproveitar este momento para dirigir uma curta mensagem a quantos escutam?
A. R. — Eu acho que…, uma mensagem aos nossos camaradas portugueses… É dizer que, evidentemente, nós temos, temos de amar a verdade e batermo-nos pela verdade e pelo progresso, pelo que está… A… a humanidade é uma, é como uma prova de, como uma gravura, não é verdade?, que está numa máquina. É preciso uma série de provas. Nós estamos a melhorar a nossa…
I. C. — Nós somos as provas, ainda não somos o exemplar definitivo.
A. R. — Mas estou convencido, creio que a nossa obrigação, a obrigação de todos os escritores é, realmente, interessarem-se pelos grandes problemas do mundo e da melhoria do homem e da…. E de todos os homens em geral.
I. C. — Com certeza!
A. R. — Pobres e ricos [I. C. — Com certeza!]. Não, realmente, não criando a…
I. C. — Sem distinções…
A. R. — … não criando a miséria dos ricos para fazer os pobres, os pobres ricos, mas elevando os pobres, de maneira a que eles, a que a condição de viver não seja para eles um [I. C. — Um sacrifício.] um castigo.
I. C. — Se fosse locutor deste programa, havia ainda alguma pergunta que gostasse de fazer ao Aquilino Ribeiro?
A. R. — Ah, não, não! O senhor já me fez perguntas (e) eu já terei sido indiscreto e ao mesmo tempo inconveniente e até absurdo… e até absurdo.
I. C. — Não é possível ser absurdo.
A. R. — Vê, nós estávamos aqui a conversar, por assim dizer…
I. C. — Como amigos, se me permite essa honra.
A. R. — … e esquecendo que está aqui den… dentro de nós… [I. C. — … um microfone…] a mais indiscreta testemunha das nossas conversas…
I. C. — (Breve riso.)
A. R. — (Quase ri.) Mas não, senhor, o senhor, fez as suas perguntas muito bem, e com muita consciência e concisão e…
I. C. — As perguntas, afinal, não têm interesse; o que tem interesse são as respostas.
A. R. — Ai tem, tem. Não. O senhor também formulava as suas perguntas…, isto, hoje, não é nenhuma verdade[7]!...
I. C. — E não faz ideia como lhe agradeço, em nome de todos os que nos escutaram, o favor de ter vindo até aqui, roubando um bocadinho ao seu trabalho, porque sei que é um trabalhador das letras, realmente, como se pode dizer.
A. R. — Trabalho, trabalho… Tem que ser… Eu… Hei-de morrer com a enxada na mão.
I. C. — Pois desejo-lhe as maiores felicidades!...
A. R. — Muito obrigado.

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Locutor:
— Aquilino Ribeiro, na rádio, no programa «O Perfil de Um Artista», de Igrejas Caeiro, corria o ano de 1957. Seis anos depois, morreu Aquilino. Nesta segunda-feira, 27 de Maio, passam cinquenta anos sobre a morte do escritor.
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Música — voz feminina canta. [7 min. e 12 seg.]
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Locutor:
— Morte de Isolda. Tristão e Isolda, de Richard Wagner, com Jessie Norman e a Orquestra Filarmónica de Viena, direcção de Herbert von Karajan. Outra data assinalada, de forma sublinhada nos últimos dias; os duzentos anos do nascimento de Richard Wagner. Já a seguir, Lilliput. É o pequeno grande mundo…    …    …    …    …    …    …    …

domingo, 18 de janeiro de 2015






22 ª Hora


Partir ansiosamente
Nas locomotivas de Chirico
Recapitulando sustenidamente
Aquilo que nos torna mais rico

Os horizontes vazios
Das tardes cansadas
O fragor diletante dos desafios
As práticas nuas e esvaziadas

De seres em recôndito conflito
Querendo transformar a existência
Num audaz e misterioso labirinto
De absurdo e incontinência

Rezam leves alegrias
Pelo vento que domina
E volvem tristes euforias
Em sanguinária adrenalina.



Januário

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

CLEPSYDRA

POÊMAS DE
CAMILLO PESSANHA

EDIÇÕES LUSITANIA

LISBOA—1920

INSCRIPÇÃO

Eu vi a luz em um paiz perdido.
A minha alma é languida e inerme.
Oh! Quem podesse deslisar sem ruido!
No chão sumir-se, como faz um verme…

Ficheiro:Amadeo de Souza-Cardoso, Untitled (Coty), 1917, oil and collage on canvas, 94 x 76 cm.jpg





Pavorosa illusão da eternidade,
Terror dos vivos, carcere dos mortos,
D'almas vãs sonho vão, chamado inferno;
Systema da politica oppressora,
Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos
Forjou para a boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arraigas
Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas;
Dogma funesto, detestavel crença
Que envenenas delicias innocentes,
Taes como aquellas que no céo se fingem.
Furias, cerastes, dragos, centimanos,
Perpetua escuridão, perpetua chamma;
Incompativeis producções do engano,
Do sempiterno horror terrivel quadro
(Só terrivel aos olhos da ignorancia)
Não, não me assombram tuas negras côres:
Dos homens o pincel e a mão conheço.
Trema de ouvir sacrilego ameaço
Quem de um Deos, quando quer, faz um tyranno.
Trema a superstição; lagrimas, preces,
Votos, suspiros, arquejando espalhe;
Cosa as faces co'a terra, os peitos fira:
Vergonhosa piedade, inutil venia.
Espere ás plantas do impostor sagrado,
Q'ora os infernos abre, ora os ferrolha;
Que as leis e propensões da natureza
Eternas, immutaveis, necessarias,
Chama espantosos, voluntarios crimes;
Que as ávidas paixões, que em si fomenta,
Aborrece nos mais, nos mais fulmina;
Que molesto jejum, roaz cilicio
Com despotica voz á carne arbítra;
E nos ares traçando a futil benção,
Vai do gran'tribunal desenfadar-se
Em sordido prazer, venaes delicias,
Escandalo de amor, que dá, não vende.
Ó Deus! não oppressor, não vingativo,
Não vibrando c'o a dextra o raio ardente
Contra o suave instincto que nos déste;
Não carrancudo, rispido arrojando
Sobre os mortaes a rispida sentença;
A punição cruel, que excede o crime,
Até na opinião do cego escravo,
Que te ama, que te incensa, e crê que és duro:
Monstros de vis paixões, damnados peitos,
Pungidos pelo sofrego interesse,
Alto, impassivel numen, te attribuem
A colera, a vingança, os vicios todos;
Negros enxames, que lhe fervem n'alma.
Quer sanhudo ministro dos altares
Dourar o horror de barbaras cruezas;
Cobrir de véo compacto e venerando,
Atroz satisfação d'antiguos odios,
Que a mira poem no estrago da innocencia:
Ou quer manter asperrimo dominio,
Que os vaivens da razão franqueia e nutre.
Eil-o em sancto furor todo abrasado,
Hirto o cabello, os olhos côr de fogo,
A maldição na bôcca, o fel na espuma;
Eil-o cheio de um Deus tam mau como elle;
Eil-o citando os horridos exemplos,
Em que aterrada observa a phantasia
Um Deus o algoz, a victima o seu povo.
No sobr'olho o pavor, nas mãos a morte,
Involto em nuvens, em trovões, em raios,
D'Israel o tyranno omnipotente
Lá brama do Sinai, lá treme a terra.
O torvo executor dos seus decretos,
Hypocrita feroz, Moysés astuto
Ouve o terrivel Deus, que assim troveja:
"Vai, ministro fiel dos meus furores,
Corre, vôa a vingar-me, e seja a raiva
D'esfaimados leões menor que a tua.
Meu poder, minhas forças te confio;
Minha tocha invisivel te precede;
Dos impios, dos ingratos, que me offendem
Na rebelde cerviz o ferro ensopa.
Extermina, destroe, reduz a cinzas
Dam a frageis metaes, a deuses surdos.
Sepulta as minhas victimas no inferno;
E treme se a vingança me retardas."
Não lh'a retarda o rabido propheta.
Já corre, já vozeia, já diffunde
Pelos brutos attonitos sequazes
A peste do implacavel fanatismo.
Armam-se, investem, rugem, ferem, matam.
Que sanha, que furor, que atrocidade!
Foge dos corações a natureza.
Os consortes, os paes, as mães, os filhos,
Em honra do seu Deus consagram, tingem
Abominosas mãos no parricidio.
Os campos de cadaveres se alastram;
Susurra pela terra o sangue em rios.
Ah! barbaro impostor, monstro sedento
De crimes, de ais, de lagrimas, d'estragos,
Serêna o phrenesi, reprime as garras,
E a torrente de horrores que derramas
Para fundar o imperio dos tyrannos,
Para deixar-lhe o feio e duro exemplo
D'opprimir seus iguaes com ferreo jugo.
Não profanes, sacrilego, não manches
Da eterna divindade o nome augusto.
Esse, de quem te ostentas tam valido,
He Deus, do teu furor, Deus do teu genio;
Deus creado por ti, Deus necessario
Aos tyrannos da terra, aos que te imitam,
E áquelles que não crêem que Deus existe.
N'este quadro fatal bem vês, Marilia,
Que, em tenebrosos seculos involta,
Desde aquelles crueis, nefandos tempos,
Dolosa tradição correu aos nossos.
Do coração, da ideia, ah! desarraiga
De astutos mestres a fallaz doutrina,
E de credulos paes preoccupados
As chimeras, visões, phantasmas, sonhos.
Ha Deus; mas Deus de paz, Deus de piedade,
Deus de amor, pae dos homens, não flagello;
Deus, que ás nossas paixões deu ser, deu fogo;
Que só não leva a bem o abuso d'ellas;
Porque á nossa existencia não se ajusta,
Porque inda encurta mais a curta vida.
Amor he lei do Eterno, he lei suave:
As mais sam invenções; sam quasi todas
Contrarias á razão e á natureza,
Proprias ao bem de alguns, e ao mal de muitos.
Natureza e razão jámais differem:
Natureza e razão movem, conduzem
A dar soccorro ao pallido indigente,
A pôr limite ás lagrimas do afflicto,
E a remir a innocencia consternada,
Quando nos debeis, magoados pulsos
Lhe roxeía o vergão de vís algemas.
Natureza e razão jámais approvam
O abuso das paixões, aquella insania
Que, pondo os homens a nivel dos brutos,
Os infama, os deslustra, os desacorda.
Quando a nossos iguaes, quando huns aos outros
Traçamos fero damno, injustos males,
Em nossos corações, em nossas mentes
És, ó remorso! o precursor do crime;
O castigo nos dás antes da culpa,
Que só na execução do crime existe;
Pois não póde evitar-se o pensamento.
He innocente a mão que se arrepende.
Não vêem só d'um principio acções oppostas,
Taes dimanam de um Deus, e taes do exemplo,
Ou do cego furor, molestia d'alma.
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto
Que te anceiam phantasticos terrores,
Prégados pelo ardil, pelo interesse
Só de infestos mortaes na voz, n'astucia.
A bem da tyrannia está o inferno:
Esse que pintam bárathro de angustias
Sería o galardão, sería o fructo
Das suas vexações, dos seus embustes,
E não pena de amor, se inferno houvesse.
Escuta o coração, Marilia bella,
Escuta o coração, que te não mente;
Mil vezes te dirá; "Se a rigorosa,
Carrancuda oppressão de um pae severo
Te não deixa chegar ao caro amante
Pelo perpetuo nó que chamam sacro,
Que o bonzo enganador teceu na ideia,
Para tambem de amor dar leis ao mundo;
Se obter não pódes a união solemne,
Que allucina os mortaes; porque te esquivas
Da natural prisão, do terno laço
Que em lagrimas, em ais te estou pedindo?
Reclama o teu poder e os teus direitos
De justiça despotica extorquidos.
Não chega aos corações o jus paterno,
Se a chamma da ternura os afogueia.
Eia pois, do temor sacode o jugo,
Acanhada donzella, e no teu pejo,
Destra illudindo as vigilantes guardas,
Pelas sombras da noite, a amor propicias,
Demanda os braços do ancioso Elmano;
Ao risonho prazer franqueia os lares.
Consista o laço na união das almas;
Do ditoso hymeneu as venerandas,
Caladas trevas testemunhas sejam;
Seja ministro amor, a terra o templo,
Pois que o templo do Eterno he toda a terra.
Entrega-te depois aos teus transportes,
Os oppressos desejos desaffoga,
Mata o pejo importuno; incita, incita
O que só de prazer merece o nome.
Verás como, involvendo-se as vontades,
Gostos iguaes se dam e se recebem.
Do jubilo ha-de a força amortecer-te;
Do jubilo ha-de a força aviventar-te:
Sentirás suspirar, morrer o amante;
Com os teus confundir os seus suspiros:
Has-de morrer e reviver com elle.
De tam alta ventura, ah! não te prives,
Ah! não prives, insana, a quem te adora."
Eis o que has-de escutar-lhe, ó doce amada!
Se á voz do coração não fores surda.
De tuas perfeições enfeitiçado,
Ás preces que te envia eu uno as minhas.
Ah! faze-me ditoso, e sê ditosa.
Amar he um dever além de um gosto;
Uma necessidade, não um crime
Qual a impostura horrisona pregoa.
Ceos não existem, não existe inferno.
O premio da virtude he a virtude;
He castigo do vicio o proprio vicio.
M. M. B. DU BOCAGE


terça-feira, 7 de janeiro de 2014

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014