terça-feira, 26 de fevereiro de 2013






A ideia surge do nada
Pela vida retemperada
Vamos aonde quer que fosse
Num pranto que consome, doce...


Januário

18/05/01
                                               

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013













Certas horas têm reserva de acontecer
Em demanda de improviso
E existem porque têm que ser
E acontecem sem aviso.





segunda-feira, 28 de janeiro de 2013














19º Hora



Ouvi os clamores da rua
De madrugada pronunciaram
A dizer que sorte era a tua
Só pelas balas te calaram

Olhas-te à distância
E viste o rebanho em pastorícia
Ruminando a eleitoral ignorância
Em mórbida e dura sevícia

E os cheiros nauseabundos
Transitaram pelos prédios
Onde dormem vagabundos
Esvaindo-se em calados tédios

Ouvi silenciosas orações
De torpor, cheias, em ascese
Elevando em brado os corações
E os corpos em telegenese.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012









Recebi um email via Nostradamo
Um judeu que nasceu em Notre-Dame (Paris)
Na noite da peste bubónica
Peremptoriamente dizendo que sim

Às grandes desgraças que sempre assolaram
Este planeta barricado neste sistema
Pois ele é o ser mais vivo
O ser mais inconformado do Universo

E por isso aspira, a ser outra coisa
Que não o que os seus irmãos aspiram
Para ele, por demais só há para alguns
Os da família primordial que empedra

O quasar das pequenas coisas incontidas
No sublevar das incontinências adormecidas
Na tremelga das gerações ensopadas
No software dos binários terminados

Numa teia de incomensurável pulsão
Onde orbitam escandalosas, todas
As prenunciações do mal
Num gráfico animado pela dor.

Januário
20-12-2012








segunda-feira, 17 de dezembro de 2012



O nosso Senhor Capitão

Augusto Casimiro







Escritor e militar português, Augusto Casimiro dos Santos nasceu a 11 de maio de 1889, em Amarante. Nessa localidade fez os seus estudos primários e liceais. Aos 16 anos, tendo escolhido a carreira militar, assentou praça noRegimento de Infantaria de Coimbra. Frequentou então estudos universitários em Coimbra e, depois, o Curso de Infantaria da Escola do Exército, de que saiu graduado em 1909. Cedo se revelou como poeta e cronista, estreando-se como autor em 1906 e iniciando a sua colaboração na imprensa periódica na década de 1910. Também por esta altura aderiu aos ideais republicanos.

Cumpriu os preceitos militares, encarando-os como uma forma nobre de servir a sua Pátria. Na sequência desta forma de pensar quando recebeu a incumbência militar de se deslocar a Flandres, com a patente de tenente, granjeou grande prestígio e respeito junto dos seus "companheiros de armas". A sua participação na Campanha da Flandres (1917-18), durante a Primeira Guerra Mundial, valeu-lhe várias condecorações (Cruz de Guerra, fourragère da Torre e Espada, Ordem de Cristo, medalha de Ouro de Bons Serviços, Military Cross, Legião de Honra, Ordem de Avis e Ordem de Santiago) e a promoção a capitão.

Após o termo da Grande Guerra, lecionou no Colégio Militar, sendo de seguida integrado como adjunto na campanha que visava a delimitação da fronteira entre Angola e o então Congo Belga, trabalhando sob a direcção de Norton de Matos, então Alto Comissário da República em Angola. Nesse período foi Governador do Distrito do Congo e Secretário Provincial e Governador interino de Angola (1923-1926). Este período de permanência em Angola, levou-o a escrever largamente sobre temática de carácter colonial.

Augusto Casimiro, ao ser deportado para Cabo Verde na sequência da sua participação na Revolta da Madeira em 1931, quando assumiu a direcção do jornal Notícias da Madeira, que era o órgão oficial dos revoltosos. Enquanto permaneceu em Cabo Verde passou a conhecer de forma mais personalizada a Literatura Cabo-verdiana, que pôde descrever e valorizar como uma nova realidade, juntando para sua cabal interpretação o que já se sabia. Permitiu assim perceber melhor como, na dialéctica contraditória e dolorosa da colonização e da luta anti-colonial, nasceu um encontro mais fraterno de povos e de culturas com base na língua portuguesa. Em 1930 afastou-se da Ditadura, por saber que estava comprometido o seu sonho civilizador em África e por aspirar a uma República democrática. Comprometeu a carreira, sofreu a prisão e o desterro, mas não transigiu.
Em 1930, Augusto Casimiro ainda procurou estabelecer uma ponte entre o regime republicano e a Ditadura Militar, com o apoio (ou pelo menos com o conhecimento) do Prof. Manuel Rodrigues, então ministro da Justiça. As ideias de Augusto Casimiro sobre as colónias tinham sido expressas em artigos publicados no Diário de Notícias e encontraram algum eco junto de elementos da ditadura como o próprio Ministro da Guerra da época, Namorado de Aguiar que, em privado teria mostrado concordância com as ideias expressas pelo militar republicano. 

Devido às suas actividades oposicionistas foi preso em 1 de Abril de 1931, na sequência do seu envolvimento na Revolta da Madeira e julgado tribunal militar especial em 27 de Maio de 1936.

Por se opor ao regime nacionalista, esteve preso na Ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, na década de 30, regressando a Lisboa, em 1936, graças a uma amnistia. Um ano depois, foi de novo reintegrado no Exército Português, mas como reserva. 

A experiência militar marcou a sua escrita, especialmente em Nas Trincheiras da Flandres (1919) e Calvários da Flandres (1920). Como autor de poesia, ficção e textos de intervenção, em que manifestava a sua filiação no ideário republicano, o escritor publicou ainda, entre outros livros, Para a Vida (1906),A Evocação da Vida (1912), Primavera de Deus (1915), A Educação Popular e a Poesia (1922), Nova Largada (1929) e Cartilha Colonial (1936), obra na qual manifestou o seu desejo patriótico de afirmação de Portugal no mundo. 

De referir que Augusto Casimiro foi colaborador da revista Águia e cofundador (1921), dirigente e redator (1961 a 1967) da revista Seara Nova, principal órgão de comunicação que se oponha ao regime de Salazar e aoEstado Novo.

Manteve a sua ligação à oposição democrática ao Estado Novo, tendo integrado o Movimento de Unidade Democrática (M.U.D.) em apoio à candidatura presidencial de Norton de Matos. Participou em 11 de Novembro de 1950, numa sessão para assinalar o armistício da I Guerra Mundial, sendo um dos oradores convidados da sessão que se realizou no Centro Republicano António José de Almeida, juntamente com Mário Soares, o general Ferreira Martins, Maria Helena Mântua e Alves Redol [vide relato descritivo de Mário Soares in Pacheco Pereira. Álvaro Cunhal Uma Biografia Política. O Prisioneiro (1949-1960), Círculo de Leitores, Camarate, 2001, p. 130-132]. Em 1958 foi um dos apoiantes da candidatura de Arlindo Vicente à presidência da República, sendo membro da comissão central da respectiva candidatura. Fez parte também da tertúlia que reunia na pastelaria Veneza, em Lisboa, nos finais da década de 50 e inícios dos anos 60, onde se juntavam habitualmenteFerreira de Castro, Julião Quintinha, Roberto Nobre, Luís da Câmara Reys, Mário Domingues, entre outros. Privou com Teixeira de Pascoaes(seu conterrâneo), Jaime Cortesão (seu cunhado), Raul Brandão e Raúl Proença, entre outros. 
Colaborador regular de variados órgãos da imprensa periódica, dos quais conseguimos localizar os seguintes: A Águia, Alma Nova (Faro-Lisboa, 1914-1930), Amanhã (Lisboa, 1909), Atlântida (Portugal-Brasil, 1915-1920)Azulejos (Lisboa, 1907-1909), Boletim Geral das Colónias, Coimbra dos Poetas (Coimbra, nº único, 1913), Conímbriga (Coimbra, nº único, 1923),Cultura (Lisboa, 1929-1930), O Diabo (Lisboa, 1934-1940), Diário de Lisboa,Diário de Notícias, O Domingo (Angra do Heroísmo, 1909-1911), Gente Nova (Coimbra, 1912-1913), Gente Nova (Lisboa, 1922-1923), Ideia Livre(Porto, 1911-1916), Ilustração Popular (Porto, 1908-1909), A Manhã (Lisboa, 1917-1922), Mocidade Africana (Lisboa, 1930-1932), A Nossa Revista(Porto, 1921-1922), Notícias da Madeira (Funchal, 1931), Panorama (1940),Portas do Sol (Santarém, 1917), Portucale (Porto, 1928-1966), Portugal em África (1894-1910; 1944-1973), Província de Angola, A Rajada (Coimbra, 1912), A Revolta (Coimbra, 1922-1924), República, Serões (Lisboa, 1901-1911), Seara Nova, Tempo (Lisboa, 1975-1989); Tradição (Coimbra, nº único, 1920), Tríptico (Coimbra. 1924-1925), A Vida (Porto, 1905-1910), Vida Portuguesa (Porto, 1912-1915) e A Vitória (Lisboa, 1919-1922).

Augusto Casimiro colaborou na primeira série de A Águia com o pseudónimo de Maria de Castro (Mário Cláudio, “Um caso singular de Heteronomia: Maria de Castro”, Jornal de Notícias, 22-07-1980).
Prefaciou também a obra de Cruz Andrade, A perdição: contos, Tip. Semedo, Castelo Branco, 1957.

Enquanto estudante em Coimbra fez parte do Orfeão Académico.

Entre outras, publicou as seguintes obras:
 Para a Vida, 1906
 A Vitória do Homem, 1910
 A Tentação do Mar, 1911
 A Evocação da Vida, 1912
 O Elogio da Primavera, 1912
 A Primeira Nau, 1912
 À Catalunha, 1914
 Primavera de Deus, 1915
 A Hora de Nun'Álvares – versos , 1916
 Nas trincheiras: fortificação e combate (co-autoria com Mouzinho de Albuquerque), 1917
 Nas Trincheiras da Flandres (com desenhos de Diogo de Macedo e Cristiano Cruz), 1918
 Sidónio Pais": algumas notas sobre a intervenção de Portugal na Grande Guerra, 1919
 Calvário da Flandres: 1918, 1920
 Oração Lusíada
 Os Portugueses e o Mundo
 O Livro das Bem Amadas, 1921
 O Livro dos Cavaleiros, 1922
 Naulila: 1914, 1922
 A Educação Popular e a Poesia, 1922
 África Nostra, 1923
 Nova Largada – Romance de África, 1929
 Ilhas Crioulas, 1935
 A Alma Africana, 1936
 Paisagens de África, 1936
 Cartilha Colonial, 1937
 Momento na Eternidade, 1940
 Portugal Crioulo, 1940
 A Vida Continua, 1942
 D. Teodósio II [trad. do castelhano, da obra de D. Francisco Manuel de Melo], 1944
 O Segredo de Potsdam, 1945
 Lisboa Mourisca: 1147-1947, 1947
 Conquista da Terra: Hidráulica Agrícola Nacional Nun'Álvares e o seu Monumento
 Portugal na História, 1950
 S. Francisco Xavier e os Portugueses, 1954
 Portugal Atlântico – Poemas da África e do Mar, 1955
 Dona Catarina de Bragança: Rainha de Inglaterra, filha de Portugal, 1956
 Angola e o Futuro: alguns problemas fundamentais Obra Poética de Augusto Casimiro (prefácio de José Carlos Seara Pereira), Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 2001;
 A Ocupação Militar da Guiné, na História da Expansão Portuguesa no Mundo, vol.III, Lisboa, 1942, pp. 359-362.

Augusto Casimiro era casado com Adelina de Sousa Casimiro. Do casamento resultaram os seguintes filhos: Ângelo Zuzarte Cortesão Casimiro, advogado; Pedro Augusto Cortesão Casimiro, médico; Mário Augusto Cortesão Casimiro; Jaime Zuzarte Cortesão Casimiro; Augusto Zuzarte Cortesão Casimiro. 

Augusto Casimiro faleceu a 23 de setembro de 1967, em Lisboa. Dias antes tinha sido submetido a uma cirurgia melindrosa no Hospital de Jesus. O seu corpo foi depositado no talhão dos combatentes no cemitério do Alto de São João.

Bibliografia Consultada:
- Farinha, Luís, 
República, Guerra e Colónias – um “destino” cruzado do devir português, IHC-FCSH, UNL;

- Fraga, Luís Alves de, Do Intervencionismo ao Sidonismo. Os dois segmentos da política de guerra na 1ª República, 1916-1918, Imprensa da Universidade, Coimbra, 2010;

- Leal, Ernesto Castro, MEMÓRIAS DA GRANDE GUERRA (1914-1918) NA “RENASCENÇA PORTUGUESA”, Cogitationes. Filosofia, Artes, Humanidades, Ano I, Nº 03, Juiz de Fora, dezembro/2010 - março/2011 

- Matos, Helena, Salazar. A Construção do Mito, 2 vols, Círculos de Leitores, Camarate, 2003;

- Pereira, José Pacheco, Álvaro Cunhal Uma Biografia Política. O Prisioneiro (1949-1960), Círculo de Leitores, Camarate, 2001.



sexta-feira, 14 de dezembro de 2012













O que Cardoso Pires pensa da... Ditadura


  "- E no entanto, hoje, já há quem defenda a relativa benevolência do salazarismo e o considere uma ditadura à nossa imagem, uma ditadura de brandos costumes...

  - Há mesmo quem vá mais longe, há mesmo quem afirme despudoradamente que o sistema salazarista nunca foi uma ditadura. Ouvi isso aqui há tempos num debate da TV pela boca de Franco Nogueira, ex-ministro do falecido Estado Novo, e só me admira que ninguém se tivesse lembrado de lhe perguntar por que razão é que, nesse caso, o regime de Salazar se designava oficialmente Ditadura Nacional... Eu não duvido que a Dura Pax da tal branda ditadura o que pretendia era instituir uma atmosfera de medo tolerado e tolerante. Pacto de convívio entre opressores e oprimidos, o sonho de qualquer totalitarismo é sempre esse. E por essa razão é que Salazar pretendia radicar, por exemplo, a Censura como um hábito social, uma prática familiar de dissuasão, por assim dizer. Chamava-lhe resignadamente «um mal necessário», como toda a gente sabe. Simplesmente, a Censura, além de hipocrisia do Poder, era uma máquina de corrupção e de terrorismo cultural em ligação directa com a Administração e com a polícia política. Foi para denunciar a práxis e os mecanismos que a definiam que eu escrevi a Técnica do Golpe de Censura *. Publiquei esse ensaio em Londres, é certo, mas publiquei-o. E isso aliviou-me a consciência a um ponto que nem pode imaginar. Em Paris, a revista «Esprit» editou-o em tradução integral e, em Madrid, «Cuadernos para El Dialogo» reproduziu-o em grande parte.

- É nesse ensaio que denuncia a destruição da Sociedade de Escritores...

- É uma análise onde, entre outras coisas, falo do terror censório e do terror armado. Descrevo o assalto e a destruição da Sociedade de Escritores por comandos da ultradireita. A PIDE e a Censura estavam estreitamente comprometidas na operação, era evidente, e, como não podia deixar de ser, os activistas da organização Jovem Portugal. Depois do 25 de Abril a Comissão da Extinção da PIDE e da Legião Portuguesa forneceu-me provas documentais dessa operação de terrorismo. Alguns funcionários da Polícia Judiciária estavam envolvidos também nela e havia até um escritor, Amândio César, que teve um papel da mais alta responsabilidade nos acontecimentos. De resto, um assalto em grande estilo, como aquele, contra a resistência cultural à guerra colonialista pressupunha, como é evidente, uma conjugação de forças repressivas a vários níveis para explorar todos os argumentos psicológicos, patrióticos e segregacionistas que legitimassem a ira nacional. E o rastilho pegou imediatamente. A caça às bruxas declarou-se sem hesitações. Prisão de escritores, destruição duma livraria na Rua D. Estefânia, provocações de rua, entrevistas na imprensa e na televisão a soldados estropiados em combate, individualidades pressurosas em condenar publicamente os intelectuais, esses traidores da guerra colonial... sei lá. Ainda me estou a lembrar do locutor Mensurado a dirigir com subserviente comoção uma manifestação televisiva contra os escritores. Pior, pior ainda! Entre os carrascos dos escritores portugueses figurou um poeta angolano que depois da Independência foi recuperado como patriota e figura nacional. O assalto à Sociedade de Escritores sofreu destas alianças bizantinas...

- Depois dessa crista de terror, a pressão abrandou um pouco...

- ... como era regra da «Ditadura dos Brandos Costumes». Os paternalismos ferozes estabelecem o seu equilíbrio através dos ciclos de agressão de que fala Lorenz. Só que, desta vez, o Governo, além de abrandar, resolveu aproveitar-se do medo que ficou a pairar. O «Diário de Notícias» e o Secretariado Nacional da Informação passaram a acenar com prémios oficiais a certos escritores independentes e diga-se de passagem que alcançaram algum resultado. Nessa onda de aliciação recordo-me da atitude exemplar de António Ramos Rosa que, doente e em dificuldades económicas, teve a coragem de recusar o Prémio de Poesia que o fascismo lhe quis atribuir.

- O marcelismo anunciou-se como querendo ter uma outra relação com a cultura...

- O consulado de Marcelo Caetano procurava adaptar a subdoutrina do Salazar a um país desautorizado por fora e por dentro. A própria Polícia Política começava a ver na guerra do Ultramar um imenso cemitério onde jaziam alguns dos seus agentes mais sanguinários, os célebres Flechas. Por outro lado, o alto funcionalismo oficial sentia o futuro comprometido, jogava entre o poder político e a protecção do grande capital. Dou-lhe um exemplo passado comigo no Fundão, meses antes do 25 de Abril. Houve um almoço, era a festa de aniversário do «Jornal do Fundão» e, inesperadamente, vem um aviso do governador civil de Castelo Branco a proibir-me de falar. Porquê, por eu estar na mesa da presidência? Não sei. Mas, pronto, proibia. Eu, sinceramente, não tinha a menor intenção de dizer fosse o que fosse, mas, perante a intimação, não tive outro remédio senão tomar a palavra e denunciar a proibição que acabava de me ser comunicada. Apareceu imediatamente a PIDE que cercou o restaurante e espancou brutalmente um criado. E pronto, a festa ficou por aí. Saímos por entre duas filas de pides que, para surpresa minha, não me deram voz de prisão, limitando-se a deitar-me olhares provocadores. Porquê? Ah bom, porque nessa altura já o horizonte da Ditadura estava pouco promissor. O tal governador civil era ou tinha sido veterinário dum grande lavrador da região que o dissuadira de levar ao fim a operação policial, devido ao telefonema de um amigo que se encontrava no almoço. O obediente governador chamava-se Simplício Barreto Magro, um nome destes nunca mais se esquece. Logo a abrir o ensaio Técnica do Golpe de Censura * deixo-lhe uma referência elucidativa: «Dedico estas reflexões», digo eu lá, «a um cidadão sem letras, Simplício Barreto Magro, veterinário e governador fascista, o qual, proibindo-me, me obrigou a falar de liberdade.» É que aquela reunião foi realmente uma afirmação de liberdade em homenagem a um resistente como António Paulouro e ao jornal que ele dirigia.

* Incluído em E agora José?, Moraes Editores, Lisboa, 1977.

Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 38 - 41










Pequena entrevista a Teixeira de Pascoaes




Entrevista a Teixeira de Pascoaes (1950)
- Gostava de saber o que pensa de Fernando Pessoa. As suas alusões irónicas ao «Supra Camões» e ao «Sumo Poeta da actualidade» parece não deixarem lugar a dúvidas de que Fernando Pessoa não lhe merece muita consideração como poeta...

- Evidentemente.

- Mas então seria muito interessante ouvir a sua opinião, fundamentada, sobre Fernando Pessoa, tanto mais que a teoria do «Supra Camões» foi sob a sua direcção n'A Águia, que ele a expôs, e além disso creio que devem ter convivido um com o outro...

- Conheci-o pessoalmente, mas convivi pouco, ou antes, não convivi com ele. Tinha um aspecto misterioso... Olhe: era quase só nos eléctricos que o encontrava (excepto uma vez em que conversei com ele no Martinho da Arcada). E, a propósito, ocorre-me que, numa ocasião, entrando eu num eléctrico (recordo-me bem, era da carreira da Estrela), deparo com Fernando Pessoa que me pergunta de chofre: «Já notou uma coisa, ó Pascoaes? Há escritores de quem toda a gente fala e ninguém lê, e outros de quem ninguém fala e toda a gente lê. E destas duas espécies, qual, em seu entender, tem mais valor?» Respondi que aqueles de quem toda a gente fala e ninguém lê, e Fernando Pessoa rematou: «é também a minha opinião».