quinta-feira, 5 de março de 2009

GOVE



GOVE


As moscas embebedam-se no whisky
No copo meio cheio meio vazio
Enquanto a lenha crepita na lareira
Alguém está e não está
Consumido pelo fogo que justamente
Arde o ar do espaço
E se volatiza em vazio que preenche o espaço
A menos que o telefone toque
E aí surge a realidade
No sentido da voz
Que volta a encher o espaço
Na mesma medida, porém
Em que deixa de existir
Mal o cão ladre a presença
Da forma que se pronuncia
Na boca a degustação do vinho.



Decomposição


Baião


Januário


20/11/01

Nave de Haver



NAVE DE HAVER





No cimo do granito empedrado
Junto à Rua Direita que sobe
Jurei ao Dragão meu Fado
Pois quem não luta, soçobre


Temi meus dias escuros
Os dentes cerrei timorato
De quem movia obscuros
Pulsos do desejo nato


Construí a vontade de existir
Inventei a prole que me sustenta
Na existência pus o xis
Que mais me atormenta



Ter o ser na mão
E nele ser tudo
De hoje e então
Triste poeta mudo.






Sabugal

(o devir)


Januário



24/08/01

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Cafede


CAFEDE





Vigilâncias carregam o sumir
Da existência, corvos de inquietação
Tudo se resume a não ter onde ir
Batalhas feras de Argamedão


Desamorados enleios que vibram
Na cor citrina dos objectos
Cheiros de suor que enfibram
Até os mais circunspectos



Crentes do azul adormecido
Plasmam vontades afectivas
Criadas no cerne escarnecido
As dilatam em perspectivas



Sósias de outra dimensão
Procuram sem fim o segredo
Só a chave do coração
Abre a fechadura do medo



Partir para longínquas alturas
Onde ser homem não custa tanto
Estancar o riso das nevruras
Em belos estribilhos do canto.




Outro Lugar


Castelo Branco

Januário
17/11/01

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Beati pauperis spiritu (Excerto2)


Deleites
Enfeitados de cumplicidade pardacenta
Onde nada acontece, sortilégio de coisa nenhuma



Caminho
Sem serventia nenhuma busque oxalá
Outro vento levantasse o pó das ideias



Ou das estrelas
Outra luz refundisse o plasma cósmico
A poalha interestelar a nave descobrisse

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Lamber feridas


SEZURES




Noite de fráguas entreabertas no sonho
Ali me retive na encruzilhada do tédio
Obscuro de mim, à estrela mais alta
Retini o temor que habita
Em cavernosas ideias silentes
Mais não eram que gotas de orvalho
Que choram do Céu em prantos de luz
Na caprichosa via do instante
Tudo se fende em linhas rectas
De gravidade por sobre os corpos que envelhecem
Naquele dia mas não no outro que lá perdura
Algures, os primeiros gestos da infância permanecem.




Lamber feridas

Penalva do Castelo


Januário

09/11/01

A Religião









POUSAFOLES DO BISPO






Sabia-se por todo o povoado, o rumor
Que as paredes trespassava
Que o Bispo de dar tanto amor
Em confissões íntimas já contava
Um rebanho de filhos por toda a parte
Que às mentes não afinava (atinava)
A todos tinha agora em disfarce
Meter à força na colegiada.




Sabugal

(A religião)


Januário


17/08/01

O despeito


ESPITE




Notas de culpa endereçadas ao humano
Assumpta o existir nas trevas desconforto
Porque queremos irmanar o desengano
Fazem das nossas razões assunto morto


Nada lhes ocorre senão o umbigo cogitar
Carregam pesadas entropias assassinas
Periódicos brutos não sabendo amar
Inoculam as gentes de neurinas (urinas)



A despeito de nada querem tudo
Nem que seja só para doer o consumir
Do ser, com a alma que é seu escudo
Para eles se tanto nos valer, rir.




Leiria


Januário

(o despeito)


8/10/01