domingo, 7 de novembro de 2010

étereo

Etéreo



Balofo de ares e alheio
À esquina roçando o meio
Esdrúxula testa afinca
O olhar súbito que trinca
Imperial vicio que domina
A noite chega o dia culmina
Tretas, minerais chocos, podres
Caras nas vacinas dos odres
Reduz-se e atina enxerga de ócio
Poses mágicas de alheamento ósseo
Esqueletam-se sistemas, confins
Abstracções dispostas das luzes ruins
Climas saturados de ambiente
O caudal imenso de gente
Para onde se dirigem? Destino,
Em ti tocam todas as coisas como um sino
De aldeia, o acolher do povo
À comunhão, à ascese do novo.


Januário

4/6/83

barbeiro

BARBEIRO



No dia em que corto o meu cabelo
Sinto-me um anjo monótono e careca
Com o painel de estrelas sempre na mão esquerda
Tentando segurar o aparelho medidor da paciência
Mergulho bucólico e alcoólico
Na banheira antiga e portuguesíssima do Tejo
Sonhando apanhar os pirilampos que diminuem aos olhos
De observador iluminado com que seduzo as meninas
Que vão para a escola
No jogo florido da idade
Imaginar apanhar as bocas que nunca beijei
No dia em que corto o meu cabelo
Sinto um furiosíssimo aquecer abrasar-me as orelhas
Na telepatia surda dos pensamentos alheios
Nostalgicamente vendo as grades dos meus eus
Penteando-se nas retretes escritas no meio da necessidade
E então cabelos já soltos
Rodeiam meus pés na preguiça do fumo do cachimbo de prata
E fantástico das preces minhas sombras, árvores meus anseios
& sonhos na noite já deitados
pondo a escrita em dia na vaga perturbadora
dos não sonhadores
do seu dormir
& em outra comida recomendada por uma caixa metálica
inventa sonhar no meio dos gelados de cimento armado
no deserto planetário e vil do caixote de lixo
onde são deitadas as tentações do dia
com que eu cortei o meu cabelo
que era belo.


Januário

24-11-80

amor a quem a vida

Amor a quem a vida
Nosso sangue derrama
Fleuma dádiva tida
Esquenta o corpo quem ama
Cego por quem enlanguescia
Mudo a vulto berrava
Deitado assim dormia
Para outro lado se voltava.




Januário

80

a juventude e a dor

A juventude e a dor
Eis um mar de sargaços
Um sonho de amor
E o desastre dos percalços.



Januário

19/4/83

sábado, 6 de novembro de 2010

Pancada subalterna

Pancada subalterna nas camadas secundárias
Masturbações os contradizem, sedentas horárias
Que passeiam cavernosas pela rua máxima
Magnífica de tarados de dor próxima.
Só sabendo o estilo e suas técnicas
Quem fumo o inoculou espectador das cénicas
Fotografias das roupagens convencionais
Quem sou para mim são os demais.
Depois vem os estares perversos
A comprida língua de oráculos certos
Vomitar a ânsia do arrependido
O deambulante labiríntico das ruas perdido
Ora se acostuma a forma incerta cheia
De luar sem haver lua por achar teia
Estampilhada observação se torna real
Os lábios doces e frios me sabem a sal
Como quando a dar era urgente
Uma magnética separação impelia por gente
Único conceito assim detectado
O facto tão antigo sem mistério inebriado.



Januário

27/03/82

O bom do vizinho

O bom do vizinho
Pelas sete da manhã
Bebe um copo de vinho
Para ajuda da vida sã.
Gasta-se por caminhos iguais
De casa ao emprego
Sofrendo pelos metais
As relíquias põe no prego.
À noite a televisão
Fá-lo longe viajar
Sabe notícias e conhece como são
Grandes senhores a discursar
E pensando só
Julga conquistar o mundo
Em quimeras de sonho e dó
Navega mares sem fundo
Rotineiro em tudo o que faz
Na cama sua mulher deita
E adormece num sonho incapaz
De algo, súbito feliz, espreita.




Januário


3/82

Mãos devagar te levam

Mãos devagar te levam
E tu não dás por nada
Como dum cinzel purificador
A sombra é-te retractada

Para os Céus ergueste as crenças
Sem elas eras olvido
Num pranto com luz ao meio
No escuro quarto retido.



Januário

8/3/83